outubro 2026
Por FisioNunes
Há dores que aparecem logo nos primeiros passos da manhã. Outras surgem depois de algum tempo em pé, ao caminhar durante vários minutos ou quando se retoma uma atividade que já fazia parte da rotina.
A dor na parte inferior do calcanhar é uma dessas situações. Pode começar de forma discreta e, durante algum tempo, parecer apenas um incómodo passageiro. Mas quando começa a alterar a forma de caminhar, a limitar o tempo passado de pé ou a impedir determinadas atividades, deixa de ser apenas uma dor localizada no pé. Uma das causas mais frequentes é a dor plantar do calcanhar, muitas vezes associada à chamada fascite plantar. A fáscia plantar é uma estrutura de tecido conjuntivo que percorre a parte inferior do pé e participa na sustentação do arco plantar e na transmissão das forças durante a marcha.
Quando os primeiros passos são os piores
Imagine, por exemplo, uma pessoa que começa a sentir dor no calcanhar ao levantar-se da cama. Nos primeiros passos, o desconforto é mais intenso. Depois de caminhar alguns minutos, melhora. Mais tarde, depois de permanecer sentada durante algum tempo, volta a sentir dor quando se levanta.
Este padrão é frequente na dor plantar do calcanhar. O desconforto pode também aumentar depois de longos períodos de marcha, corrida ou permanência em pé. A primeira reação costuma ser procurar uma explicação simples: “tenho de alongar mais”, “preciso de trocar de sapatos” ou “tenho de descansar”. Algumas destas medidas podem ajudar. Mas nenhuma explica, por si só, porque é que aquela pessoa desenvolveu o problema.
O pé tem de suportar aquilo que lhe pedimos
Cada passo representa uma carga sobre o pé. Quando caminhamos mais, passamos muitas horas de pé, começamos a correr ou aumentamos subitamente a intensidade do exercício, também aumentam as exigências colocadas às estruturas do pé e do tornozelo. O problema pode surgir quando essa carga ultrapassa, durante algum tempo, a capacidade que os tecidos têm para a suportar.
Por isso, a dor plantar do calcanhar não deve ser encarada apenas como um problema localizado na zona dolorosa. A quantidade de atividade realizada, alterações recentes da rotina, mobilidade do tornozelo, força da musculatura do pé e da perna e características do calçado podem fazer parte do quadro. Isto ajuda também a perceber porque é que duas pessoas com dor exatamente na mesma região podem não precisar da mesma abordagem.
Repousar pode aliviar, mas nem sempre resolve
Reduzir temporariamente uma atividade que agrava os sintomas pode ser adequado. Se uma pessoa passa de uma rotina sedentária para correr vários dias por semana e começa a sentir dor no calcanhar, continuar a aumentar a carga dificilmente será uma boa estratégia.
Mas existe uma diferença importante entre reduzir a carga e deixar completamente de utilizar o pé.
Se uma pessoa deixa de caminhar durante várias semanas, pode sentir menos dor simplesmente porque deixou de exigir ao pé aquilo que provocava os sintomas. Isso não significa necessariamente que tenha recuperado a capacidade necessária para voltar imediatamente à atividade anterior. Quando retoma de forma brusca, pode voltar a colocar sobre o pé uma carga para a qual ainda não está preparado.
A reabilitação procura precisamente evitar este ciclo: dor, repouso completo, melhoria temporária, regresso demasiado rápido à atividade e nova dor. A orientação de serviços do NHS para a dor plantar do calcanhar reforça a importância de ajustar temporariamente a carga sem interromper completamente a atividade e de a voltar a aumentar de forma progressiva.
Alongar é suficiente?
Os alongamentos podem fazer parte da recuperação, sobretudo quando existe limitação da mobilidade da região da barriga da perna ou do tornozelo. Mas o alongamento não é necessariamente a resposta para todos os casos. Se o problema envolve uma capacidade reduzida para suportar carga, essa capacidade também precisa de ser trabalhada.
É aqui que o fortalecimento do pé e da perna pode assumir um papel importante. Exercícios como elevações dos calcanhares podem ser utilizados de forma progressiva para aumentar a capacidade dos músculos e estruturas envolvidas em suportar as exigências da marcha e de outras atividades. A progressão deve ser adequada à condição e à resposta de cada pessoa.
Por exemplo, uma pessoa que apenas pretende caminhar sem dor terá exigências diferentes de alguém que pretende voltar a correr ou praticar um desporto com várias horas de treino por semana. O objetivo do exercício não deve ser simplesmente fazer mais repetições. Deve ser recuperar a capacidade necessária para aquilo que a pessoa quer voltar a fazer.
E se o problema for o calçado?
O calçado pode influenciar a forma como o pé recebe e distribui a carga. Calçado com amortecimento e suporte adequado pode tornar algumas atividades mais confortáveis, sobretudo quando a pessoa passa muitas horas de pé ou caminha regularmente. Em determinadas situações, palmilhas ou outras soluções podem também ser consideradas.
Mas trocar de sapatos não resolve obrigatoriamente a causa do problema.
Imagine alguém que começa a trabalhar num local onde passa oito horas por dia em pé. Se, simultaneamente, começa a sentir dor no calcanhar, é importante olhar para a alteração global da carga: quantas horas permanece em pé, quanto caminha, que pausas faz, que calçado utiliza e que capacidade apresenta atualmente para suportar essa rotina. O calçado pode ser uma peça da solução. Raramente é a solução completa.
Nem toda a dor no calcanhar é fascite plantar
Este é um ponto importante. A dor no calcanhar pode ter diferentes causas. A dor na parte inferior do calcanhar, particularmente quando é mais intensa nos primeiros passos depois de repouso, pode ser compatível com dor plantar do calcanhar. Mas existem outras condições que podem provocar dor na mesma região. Uma lesão óssea, por exemplo, pode apresentar-se de forma muito diferente e pode estar associada a traumatismo, dor intensa, inchaço ou dificuldade em caminhar. A dor na parte posterior do calcanhar pode estar relacionada com estruturas diferentes, incluindo o tendão de Aquiles.
Por isso, identificar a origem da dor é importante antes de assumir que se trata simplesmente de fascite plantar. Uma dor intensa, que piora progressivamente, que impede as atividades normais ou que permanece sem melhorar deve ser avaliada. O mesmo acontece perante alterações da sensibilidade, incapacidade de caminhar ou sintomas que levantem dúvidas sobre a origem do problema.
Recuperar é voltar a suportar carga
Na fisioterapia, a avaliação não deve limitar-se a perguntar onde dói. É importante perceber quando aparece a dor, que atividades a agravam, que alterações aconteceram antes do seu aparecimento e que limitações existem atualmente. Pode ser necessário avaliar a mobilidade do tornozelo, a força da musculatura do pé e da perna, a capacidade de suportar carga, a marcha e as exigências concretas da pessoa. A partir daí, a intervenção pode combinar educação, adaptação temporária das atividades, trabalho de mobilidade, fortalecimento e progressão gradual da carga. A escolha e progressão dos exercícios devem acompanhar a condição e os objetivos de cada pessoa.
Para alguém que passa grande parte do dia em pé, recuperar pode significar voltar a tolerar várias horas de carga sem agravamento significativo dos sintomas. Para quem pratica corrida, pode significar reconstruir progressivamente a capacidade necessária para correr. Para outra pessoa, o objetivo pode ser simplesmente voltar a caminhar de manhã sem ter de pensar no primeiro passo.
É essa ligação entre a recuperação e a vida real que torna a abordagem fisioterapêutica diferente de uma solução baseada apenas no alívio momentâneo da dor. A dor no calcanhar pode começar com um pequeno incómodo. Mas não deve ser necessário reorganizar toda a vida à sua volta. Quando a dor persiste, limita atividades ou começa a condicionar a forma como se movimenta, compreender o que está a acontecer é o primeiro passo para recuperar.
Porque tratar não é apenas fazer com que o calcanhar doa menos. É recuperar a capacidade para voltar a fazer aquilo que a dor começou a impedir.
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